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NOIR: Quando a escuridão se transforma em luz

Atualizado: há 5 dias

Existe uma palavra que transcende línguas, fronteiras e tempo. Uma palavra que em francês significa preto, mas que no imaginário coletivo evoca mistério, elegância e uma estética cinematográfica que marcou gerações. Essa palavra é NOIR. E é sob esse lema que o Festival de Cinema Africano Quibdó inaugura sua oitava edição em setembro de 2026.

Niño con el rostro cubierto de polvo
Niño con el rostro cubierto de polvo

O noir não é apenas uma cor. É uma declaração, uma estética, uma forma de ver o mundo. Quando Hollywood descobriu o poder das sombras na década de 1940, quando diretores como Billy Wilder e Orson Welles fizeram da escuridão a protagonista, eles não sabiam que estavam criando uma linguagem visual que, décadas depois, ressoaria com as experiências das comunidades afro-americanas ao redor do mundo.

Porque o noir, em sua essência mais profunda, fala do que está oculto e do que está revelado. Fala de identidades complexas que desafiam definições simples. Fala da beleza que existe no claro-escuro da existência, naquelas áreas cinzentas onde a vida realmente se desdobra. E, acima de tudo, fala do poder que reside na escuridão quando deixamos de vê-la como ausência e passamos a compreendê-la como presença.

Em Quibdó, NOIR tem ressonâncias particulares. É a noite estrelada sobre o rio Atrato, quando o céu se torna um espelho de infinitas possibilidades. É a pele das nossas comunidades, aquela pele negra que durante séculos foi estigmatizada e que hoje reivindicamos como fonte de orgulho e beleza. É a terra fértil do Pacífico, aquele barro negro que dá vida. É a madeira escura das nossas árvores ancestrais, testemunhas silenciosas da nossa história.

Mas o NOIR também é transgressão. É pegar um gênero cinematográfico nascido em Hollywood e reivindicá-lo, transformá-lo, torná-lo nosso. É o gesto político de dizer: negritude não é apenas uma cor de pele, é uma estética, uma forma de criar, uma forma de contar histórias. É afirmar que o cinema negro pode dialogar com o filme noir sem perder sua especificidade, seu poder, sua própria voz.

Durante cinco dias, de 14 a 18 de setembro, o Quibdó se transformará em um território NOIR. Exibiremos filmes que brincam com sombras e luz, que exploram a negritude sob múltiplas perspectivas e que desafiam as formas narrativas convencionais. Veremos cinema afrodisruptivo, thrillers afrodescendentes, ficção científica afrofuturista, documentários experimentais e romances em claro-escuro. Veremos filmes da África, da Colômbia, da diáspora nos Estados Unidos, no Brasil, no Caribe e na Europa.

Porque o NOIR também trata de encontros. É o ponto de convergência de tradições cinematográficas que pareciam separadas, mas que sempre estiveram conectadas. É o momento em que um diretor senegalês dialoga com um cineasta afro-colombiano, quando um clássico francês dos anos 1950 inspira um artista de vídeo contemporâneo de Quibdó.

Este ano queremos explorar todos os tons de preto. O preto brilhante da pele sob o sol. O preto fosco de uma noite sem lua. O preto profundo do cinema experimental. O preto luminoso do Afrofuturismo, essa estética que imagina futuros onde o preto não é marginal, mas central, não é passado, mas futuro.

Convidamos cineastas, artistas e o público a se juntarem a nós nesta exploração. Adentre a escuridão da sala de cinema, esse espaço noir por excelência onde as histórias ganham vida. Deixe-se seduzir pelo mistério, abrace a ambiguidade e encontre beleza nas sombras.

Porque no cinema, como na vida, a escuridão não é o fim. É o começo. É a tela preta antes da primeira imagem aparecer. É o momento da expectativa, da possibilidade, da promessa.

NOIR é a nossa forma de dizer: estamos aqui, somos poderosos, somos complexos, somos belos. Nem sempre precisamos estar sob os holofotes para sermos vistos. Às vezes, é justamente nas sombras que os contornos da nossa humanidade se revelam da melhor forma.

O rio Atrato continuará a correr, as ruas de Quibdó continuarão a vibrar e, durante cinco dias, o cinema será a linguagem que nos une. Um filme noir. Um cinema sombrio. O nosso cinema.


Nós te aguardamos na escuridão. Lá nos encontraremos.

 
 
 

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